Crise sanitária na Amazônia desafia metas ambientais da COP30

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A realidade sanitária na Amazônia: desafios, impactos e perspectivas

A Amazônia brasileira, a maior floresta tropical do mundo, abriga uma diversidade cultural e biológica incomparável. No entanto, a região enfrenta uma situação crítica fruto do descaso e da precária infraestrutura em saúde pública, especialmente nas terras indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas. O decreto de emergência de saúde pública na terra indígena ianomâmi, ocorrido no início do ano, trouxe à tona o abandono histórico que persiste nesta área extensa e vital para o país.

Especialistas apontam que o bioma amazônico sofre com a degradação causada por atividades predatórias, como desmatamento e queimadas ilegais, que impactam diretamente a qualidade de vida e a saúde das populações locais. Além das ameaças ambientais, a insuficiência dos serviços de saúde, saneamento básico e a exclusão social elevam a exposição a doenças infecciosas e agravam os índices de morbidade e mortalidade.

Como resultado, um cenário alarmante se estabelece: o Norte brasileiro concentra mais de 70% dos casos de febre oropouche no país, além de apresentar elevado índice de outras doenças negligenciadas, como malária, tuberculose e dengue. Todo esse cenário exige uma análise cuidadosa para entender os fatores que perpetuam a precariedade sanitária na Amazônia e buscar soluções efetivas.

Os impactos do saneamento precário e das doenças infecciosas na Amazônia

O acesso limitado a serviços essenciais, como abastecimento de água potável e coleta de esgoto, representa um dos principais obstáculos para a saúde pública na região Norte. Dados recentes indicam que apenas cinco em cada vinte domicílios possuem acesso à rede de esgoto, o que favorece a proliferação de agentes patogênicos e contribui para epidemias recorrentes.

Doenças como a febre oropouche, cujo surto na região chegou a incluir quase 6 mil casos confirmados recentemente, evidenciam esse grave problema. A febre oropouche, transmitida por mosquitos, pode causar sintomas como febre alta, dores musculares e manchas vermelhas na pele, e seu surto é um indicativo claro da fragilidade das condições sanitárias locais.

Além dela, o aumento de internações hospitalares por doenças como dengue reforça a falta de controle de vetores e a insuficiência das políticas públicas. Em 2021, o número de internações por dengue na região Norte cresceu 27% em comparação ao ano anterior, reflexo direto do ambiente propício para a multiplicação do mosquito Aedes aegypti, vetor da doença.

Esse cenário se estende para outras enfermidades, tais como leptospirose, diarreias e gastroenterites. São doenças que frequentemente afetam as populações mais vulneráveis, especialmente crianças e idosos, e que poderiam ser prevenidas com investimentos adequados em saneamento básico e educação em saúde.

O precário panorama sanitário contribui também para a existência de “doenças negligenciadas”, que são aquelas que recebem pouca atenção dos sistemas de saúde, embora causem sofrimento e mortes evitáveis. Essas enfermidades estão associadas a condições de vida degradantes e são agravadas pela pobreza, baixa escolaridade e falta de acesso aos serviços de saúde.

O legado da covid-19 e suas consequências para a saúde na Amazônia

A pandemia da covid-19 causou um impacto devastador no sistema de saúde da Amazônia, revelando fragilidades estruturais e ampliando vulnerabilidades históricas. Houve um aumento expressivo nos índices de suicídio entre mulheres na faixa etária de 30 a 59 anos, com elevação de cerca de 27% nesse grupo durante o período mais intenso da pandemia.

Outro efeito dramático foi o aumento de aproximadamente 70% nas mortes maternas em comparação ao que era esperado antes da emergência sanitária. Esse dado aponta para o colapso no acompanhamento pré-natal e a deterioração da infraestrutura hospitalar, dificultando o atendimento adequado a gestantes e a outras populações vulneráveis.

Essas consequências indiretas da pandemia expõem lacunas profundas na rede de saúde pública da região, que ainda sofre para retomar os níveis de cobertura assistencial pré-pandemia. As implicações sociais, como desemprego, aumento da pobreza e isolamento, agravaram o quadro de saúde mental da população, ampliando o estresse e a ansiedade.

Além disso, o cenário vacinal preocupa: taxas de cobertura contra doenças imunopreveníveis, como sarampo, caxumba, rubéola e hepatite A, aparecem muito abaixo dos patamares necessários para garantir a imunidade coletiva. A tetra viral e outras vacinas apresentam índices inferiores a 60%, deixando a população exposta a surtos que vêm ressurgindo, como o de sarampo e febre amarela.

Vale destacar que a desinformação, junto a desafios logísticos, como dificuldades no transporte de insumos para comunidades remotas durante períodos de seca, contribuem para essa baixa cobertura vacinal. No entanto, campanhas de vacinação em escolas têm começado a reverter esse quadro, demonstrando a importância da informação correta e do acesso facilitado.

Insegurança alimentar, nutrição e doenças crônicas na Amazônia

Outro desafio constante na região Norte é a insegurança alimentar, que afeta grandes parcelas da população, sobretudo em áreas urbanas pobres, favelas e comunidades tradicionais. Nos estados do Amazonas, Amapá e Pará, mais de 30% das pessoas vivem em situação de insegurança alimentar, sem acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade.

Esse contexto gera um paradoxo conhecido como “dupla carga de malnutrição” onde, simultaneamente, crianças apresentam tanto desnutrição quanto sobrepeso ou obesidade. Tal quadro exige atenção diferenciada, pois essas condições estão relacionadas a riscos elevados para o desenvolvimento saudável e o surgimento precoce de doenças crônicas.

Entre essas doenças, destaca-se a diabetes, que tem alta prevalência na região, associada a hábitos alimentares inadequados, sedentarismo e obesidade. No Amazonas, a taxa de mortalidade por diabetes chega a ser quase 50% superior à média nacional, superando os 40 óbitos a cada 100 mil habitantes. Esses números demonstram o peso das doenças metabólicas no contexto amazônico e sua relação com o estilo de vida e a condição socioeconômica.

Apesar dos esforços para melhorar a assistência primária e promover hábitos saudáveis, a expectativa de mudanças significativas a curto prazo é baixa. Isso porque as soluções demandam investimentos estruturais profundos, que envolvam saneamento básico, educação, valorização dos saberes tradicionais e combate à pobreza.

A importância do reconhecimento dos saberes ancestrais e da participação social para melhorar a saúde na Amazônia

Um ponto fundamental para reverter o quadro crítico da saúde na Amazônia é a valorização dos saberes ancestrais das populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Estes conhecimentos tradicionais têm potencial para complementar a medicina convencional, sobretudo em regiões isoladas, contribuindo para uma assistência mais eficaz, culturalmente sensível e sustentável.

Entretanto, esse aspecto tem sido negligenciado pelas políticas públicas e pela rede de saúde oficial, que ainda não incorporaram plenamente os métodos e práticas das comunidades locais. A invisibilidade social e institucional dessas populações perpetua a exclusão e dificulta a construção de estratégias de cuidado integradas.

Além disso, a falta de participação efetiva dos povos amazônicos nas decisões que afetam a saúde e o meio ambiente contribui para o agravamento das vulnerabilidades. A ausência deles em conferências internacionais, encontros governamentais e fóruns ambientais revela uma fragilidade democrática e limita o desenvolvimento de soluções adequadas às realidades locais.

Envolver as comunidades tradicionais no planejamento e execução das ações de saúde é vital para garantir o acesso equitativo aos serviços e promover a sustentabilidade das intervenções. Essa participação amplia a legitimidade das políticas e fortalece o vínculo entre os sistemas de saúde e as populações.

Amazônia, meio ambiente e saúde: interconexões essenciais para o futuro

O equilíbrio ambiental da Amazônia está diretamente ligado à saúde de suas populações. O desmatamento, as queimadas e a degradação dos recursos naturais alteram os ecossistemas, favorecem o surgimento de doenças zoonóticas e dificultam a subsistência das comunidades tradicionais. Assim, a proteção do meio ambiente é também uma questão de saúde pública.

As mudanças climáticas, que impactam diretamente o bioma, intensificam incêndios florestais e alteram padrões de chuva e temperatura, influenciando na transmissão de doenças infecciosas. O ar poluído das queimadas, por exemplo, aumenta os casos de doenças respiratórias, especialmente entre crianças e idosos.

Portanto, qualquer estratégia para melhorar a saúde na Amazônia deve incluir medidas para a proteção ambiental, reconhecendo a importância da floresta para a vida e o bem-estar das populações locais e do planeta. Investimentos em tecnologias sustentáveis, políticas de conservação e respeito aos direitos territoriais indígenas são cruciais para essa abordagem integrada.

Desafios e oportunidades para a saúde pública na Amazônia

  • Fortalecimento da atenção primária: Ampliar os serviços básicos de saúde nas áreas remotas, com equipes treinadas e estrutura adequada.
  • Ampliação do saneamento básico: Investir em abastecimento de água, coleta de esgoto e manejo de resíduos para reduzir doenças relacionadas.
  • Campanhas regulares de vacinação: Superar as barreiras logísticas e de comunicação para alcançar altas coberturas vacinais.
  • Promoção da segurança alimentar: Apoiar práticas de agricultura sustentável e acesso a alimentos nutritivos para reduzir a malnutrição.
  • Incorporação dos saberes ancestrais: Buscar parcerias com comunidades tradicionais para integrar práticas de saúde e garantir respeito cultural.
  • Participação social ativa: Garantir que indígenas, quilombolas e ribeirinhos tenham espaço nas decisões políticas e sanitárias.
  • Proteção ambiental: Adotar políticas que preservem a floresta para evitar desequilíbrios ecológicos e suas consequências sanitárias.

O desafio é imenso, mas a riqueza cultural e ecológica da Amazônia exige um compromisso urgente e contínuo para assegurar saúde, dignidade e qualidade de vida às populações locais.

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