Contexto dos massacres contra alauitas na Síria
Entre os dias 7 e 9 de março, uma série de incidentes violentos marcou um dos períodos mais sombrios da recente história da Síria. Segundo investigação aprofundada da agência de notícias Reuters, forças vinculadas ao governo sírio, assim como facções criminosas aliadas, realizaram ataques brutais contra os alauitas, uma minoria xiita do país. Este grupo étnico, intimamente associado ao ex-presidente Bashar al-Assad, deposto recentemente, foi alvo de quase 1.500 mortes distribuídas em cerca de 40 localidades. O fenômeno dessa violência em larga escala levanta questões sobre a instabilidade da nação e as profundas rivalidades internas no contexto do pós-Assad.
A pesquisa feita pela Reuters é impactante não apenas pela extensão dos ataques, mas pela forma como conseguiu reconstruir a cadeia de comando relacionada aos massacres, revelando uma ligação direta entre os agressores e indivíduos próximos aos novos líderes em Damasco. Este elo evidencia a complexidade da política síria, marcada por uma mistura de rivalidades sectárias, afinidades políticas e disputas pelo poder. Os tencionamentos sectários nesta guerra civil são evidentes na perseguição contra os alauitas, grupo que detinha o poder sob Assad e que, agora, sofre retalições após a mudança de comando no país.
O início dos massacres esteve relacionado a uma tentativa de rebelião organizada por ex-oficiais leais ao ex-presidente Assad. Esta insurgência custou a vida de cerca de 200 membros das forças governamentais atuais, o que, segundo análise do relatório da Reuters, teria desencadeado a onda de violência em retaliação. A cobertura jornalística contou com depoimentos colhidos de mais de 200 famílias das vítimas, encontros em campo para visita aos locais dos assassinatos, além de entrevistas via telefone com combatentes, agentes de segurança, comandantes e membros do atual governo. Essa triangulação de fontes reforça a autenticidade e o rigor investigativo do relatório.
As dinâmicas políticas e militares pós-queda de Assad
Com a queda de Bashar al-Assad, a estrutura do poder na Síria sofreu profundas transformações. A liderança foi assumida por uma facção islâmica que, no passado, era identificada como Hayat Tahrir al-Sham (HTS), reconhecida por ser o braço sírio da Al-Qaeda. Com a dissolução formal do grupo, seu ex-líder, Ahmed al-Sharaa, assumiu a presidência do país, representando uma configuração de governo bastante diferente do regime anterior. Essa transição trouxe ao cenário político sírio uma série de desafios e novas alianças, reflexo da complexidade de governar um país dilacerado pela guerra civil e pelas divisões sectárias profundas.
É importante destacar que a gravação das novas autoridades e seus métodos têm sido acompanhada de perto pela comunidade internacional. As sanções econômicas que vigoravam sobre a Síria, impostas pelo governo dos Estados Unidos em resposta ao regime anterior, começaram a ser suspensas de forma gradual, refletindo avaliações de mudanças no cenário político nacional. Este movimento suscita debates sobre os impactos dessas decisões e a eventual normalização das relações, mesmo diante das denúncias de abusos contra grupos minoritários como os alauitas.
O presidente Ahmed al-Sharaa, por sua vez, se posicionou publicamente diante dos massacres que ocorreram em território sírio. Ele denunciou os assassinatos como ameaças diretas à estabilidade nacional e prometeu rigor na punição dos responsáveis. Al-Sharaa enfatizou seu compromisso em defender os oprimidos e afirmou que nenhuma violência – seja ela perpetrada por membros próximos do governo ou por outros atores – ficaria impune. Apesar dessas declarações, persiste uma atmosfera de incerteza sobre o alcance real do controle do novo governo e sua capacidade de garantir justiça plena.
Unidades envolvidas nos ataques e suas motivações
A investigação detalhou as organizações armadas envolvidas no massacre. Entre as forças identificadas estavam o Serviço Geral de Segurança, órgão central de aplicação da lei do governo. Este serviço era o principal instrumento de repressão na época do HTS, especialmente na região de Idlib, uma localidade sob seu comando. Além disso, ex-unidades do HTS, como a Unidade 400 (uma força de combate de elite) e a Brigada Othman, também participaram dos ataques. Milícias sunitas recém-integradas às forças governamentais, como a Brigada Sultan Suleiman Shah e a divisão Hamza, ambas já sancionadas pela União Europeia por seu envolvimento em graves violações de direitos humanos, estiveram ativamente envolvidas nas operações.
Uma ordem clara para reprimir a insurreição originada por remanescentes do antigo regime, chamados de “fuloul”, foi expedida em 6 de março pelo governo recém-estabelecido. Entenda-se “fuloul” como um termo depreciativo que passou a designar indiscriminadamente os alauitas, independentemente de seu envolvimento nas ações. Essa generalização resultou em uma perseguição sectária que agravou ainda mais as tensões entre comunidades. A família Assad, líder da minoria alauita, tornou-se símbolo dessa divisão, incentivando o ódio e a violência contra o grupo.
Embora os alauitas representem apenas cerca de dois milhões de pessoas em um país de milhões, a associação do grupo ao antigo regime fez com que centenas de milhares fossem vítimas da guerra civil, seja por represália ou como consequências colaterais da violência sectária. Esta situação demonstra o peso dos conflitos identitários dentro do panorama político e social sírio, que dificulta a busca por reconciliação nacional e perpetua o ciclo de violência.
Conflito entre sunitas e alauitas: causas e consequências
O embate entre comunidades sunitas e alauitas é uma das tensões centrais da guerra síria. Após a revolta protagonizada por ex-oficiais apoiadores de Assad, facções sunitas passaram a montar listas contendo nomes de homens pertencentes à minoria alauita, incluindo antigos milicianos anistiados temporariamente pelo novo governo. Essas listas funcionavam como guias para ataques premeditados, ampliando o quadro de violência.
Gravações obtidas pela Reuters mostram cenas de extrema brutalidade: combatentes forçaram homens alauitas a rastejar e emitir sons de cães, atos que representam uma clara tentativa de humilhação e desumanização. Imagens registram pilhas de cadáveres mutilados, com vítimas que abrangem todas as faixas etárias, desde crianças até idosos e pessoas com deficiência física. Essa violência indiscriminada em numerosos vilarejos predominantemente alauitas confirma o uso de assassinatos em larga escala como arma de intimidação e repressão.
O porta-voz do Ministério da Defesa sírio na época, Abdel-Ghani, sustentou publicamente que as operações militares na costa estavam correndo conforme o planejado, enfatizando a intenção de manter o controle sobre a região e “aperfeiçoar o cerco” contra os remanescentes do antigo regime. Esta declaração ilustra, de certa forma, a narrativa oficial que justifica a escalada de restrições e ataques como uma medida de segurança nacional e combate a insurgentes.
Aldélas de al-Klazyia e a extensão da brutalidade
Uma das regiões que sofreu com maior severidade durante os massacres foi o conjunto de aldeias al-Klazyia, parte de um subgrupo alauita. A particularidade dessa área está no fato de que a família Assad e muitas das forças de segurança de elite do regime anterior eram originárias dela. Diante disso, as repressões tiveram um tom ainda mais agressivo e visceral.
A vila de Sonobar, localizada nesse conjunto, revelou a complexidade humana dessas ações violentas. Com uma população agrícola de aproximadamente 15.000 habitantes, Sonobar passou a conviver com a presença da Unidade 400, força de elite que havia prometido garantir a paz local sob o novo governo. O que parecia uma promessa chegou ao fim na manhã do dia 7 de março, quando nove facções perpetraram um massacre sistemático que resultou na morte de 236 alauitas da vila, a maioria homens jovens entre 16 e 40 anos.
Um dos sobreviventes da aldeia relatou à Reuters que, após os ataques, pichações com a frase “Vocês eram uma minoria e agora são uma raridade” foram deixadas em casas da comunidade. Este tipo de mensagem simboliza o clima de intimidação e exclusão vivenciado pela população local. O êxodo de moradores de regiões como Latakia, Tartous e Hama para bases militares estrangeiras, como a russa, ressalta o quadro de insegurança e a ausência de perspectiva de retorno imediato a seus lares.
Os ataques contra os alauitas, contudo, não cessaram com o massacre principal. Em incidentes ocorridos entre 10 de maio e 4 de junho, novas mortes foram registradas nas regiões de Latakia e Hama. Vinte alauitas foram assassinados a tiros, mas os responsáveis ainda aguardam identificação oficial, aprofundando um ciclo de impunidade e medo.