O novo mapa-múndi do IBGE: uma mudança geográfica e simbólica
Uma mudança na representação do mapa-múndi oficial do Brasil chamou atenção recentemente ao ser apresentada pela ex-presidente Dilma Rousseff, que atualmente preside o Banco dos Brics. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um mapa invertido, colocando o Brasil no centro e “de ponta-cabeça”, diferente do formato tradicional que estamos acostumados. Essa alteração tomou as redes sociais e o debate público, especialmente em um contexto em que o país expande sua influência geopolítica no cenário global.
A mudança busca questionar a visão eurocêntrica predominante na cartografia mundial, propondo uma perspectiva que impulsiona o protagonismo do Sul Global, especialmente dos países em desenvolvimento, e está alinhada ao papel do Brasil como membro ativo do BRICS e do Mercosul. No entanto, a decisão de apresentar o mapa invertido também gerou críticas internas, principalmente no IBGE, onde parte dos servidores questionou a gestão do presidente Marcio Pochmann e os rumos adotados pela instituição.
Uma nova forma de ver o mundo: causas e impactos do mapa invertido
A escolha de um mapa “de ponta-cabeça” escancara um debate muito mais amplo sobre símbolos, poder e identidade. Tradicionalmente, os mapas nos mostram o Hemisfério Norte no topo, consolidando uma visão que, ao longo de séculos, valorizou países europeus e dos Estados Unidos. Colocar o Brasil no centro, em cima e de cabeça para baixo desafia esse culturalmente arraigado padrão e levanta reflexões sobre as disparidades e o protagonismo atual dos países em desenvolvimento.
Segundo Marcio Pochmann, presidente do IBGE, o novo formato está fundamentado no “dinamismo econômico e protagonismo geopolítico” que o Brasil e os países do Sul Global vêm assumindo nas últimas décadas. Essa nova visão é parte de um esforço para exibir, simbolicamente, a reconfiguração das forças globais e “mobilizar lideranças do Sul Global”, como destacou em suas redes sociais. O Brasil, em posição crescente de influência, especialmente à frente do BRICS, estaria assim ganhando um posicionamento cartográfico condizente com sua nova realidade.
Porém, essa mudança está longe de ser unânime. Servidores do IBGE criticaram a presidência de Pochmann, acusando-o de autoritarismo e falta de diálogo com a comunidade técnica e cientistas. Alegam que decisões estratégicas como essa configuração do mapa, apesar de simbólicas, devem ser feitas com mais transparência e embasamento técnico rigoroso para evitar riscos à credibilidade da instituição e à “soberania geoestatística brasileira”.
A posição do Brasil diante do Sul Global e dos fóruns internacionais
O lançamento do chamado “novo mapa-múndi investido” pelo IBGE está intrinsecamente ligado ao momento político do Brasil no cenário internacional. Ao presidir o BRICS — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — e manter sua representação ativa no Mercosul, o Brasil tem apresentado discursos focados na multipolaridade, no desenvolvimento sustentável e na defesa dos interesses dos países em desenvolvimento.
Essa nova cartografia busca evidenciar que a visão do mundo não deve ser fixa e unilateral, mas mutável e sujeita a interpretações que reflitam as mudanças econômicas, políticas e sociais. Ao colocar o país no centro do mapa, transmite uma mensagem clara de protagonismo e liderança regional e global, que é reforçada pela realização da COP30, conferência sobre mudanças climáticas a ser sediada pelo Brasil.
No entanto, durante a apresentação oficial para autoridades chinesas, incluindo o primeiro-ministro Li Qiang, Marcio Pochmann utilizou o mapa na posição tradicional, talvez para evitar confusões diplomáticas e facilitar a compreensão dos parceiros internacionais, mostrando a complexidade de promover uma mudança nesse tipo de representação em um ambiente global ainda muito ligado aos padrões convencionais.
Perspectivas históricas e sociais da cartografia alterada
Desde os primeiros mapas medievais até os globos modernos, a cartografia sempre refletiu as ambições, os conhecimentos e os valores de sua época. O mapa como produto cultural traduz as interpretações do mundo que dominam determinada civilização. O mapa tradicional com o Norte sempre no topo remete à hegemonia das potências ocidentais, que dominaram a ciência, o comércio e a política mundial.
Ao contrário, o mapa invertido com o Brasil como referência sugere uma inversão simbólica desse protagonismo. Essa ideia ecoa uma reivindicação de maior justiça geopolítica no século XXI, onde países do Sul Global como Brasil, Índia e China buscam maior autonomia e reconhecimento no tabuleiro internacional.
Além da mudança na perspectiva geográfica, a nova cartografia facilita o debate sobre desigualdades históricas e atuais, proporcionando oportunidades para que o Brasil e países africanos e asiáticos reposicionem suas narrativas e estratégias de desenvolvimento, intercâmbio econômico e cooperação geopoliticamente mais justas.
Esse reposicionamento também é uma forma de combater a hegemonia visual e simbólica que influencia nossas percepções, desde o ensino básico até as decisões políticas e econômicas, muitas vezes submetidas a uma visão eurocêntrica do mundo.
Curiosidades sobre mapas invertidos e representações alternativas do planeta
- O conceito de mapa “virado” não é novo – artistas e cartógrafos têm experimentado versões invertidas do globo para desafiar o convencional e estimular novas formas de pensar o espaço geográfico.
- Existem mapas com o sul para cima desde o século XVI, quando cartógrafos já questionavam a centralidade da Europa e da América do Norte.
- A representação no formato tradicional historicamente reforça o “norte” como superior, o que influencia até hoje as relações internacionais e econômicas.
- O Brasil raramente foi mostrado no centro do mapa antes dessa iniciativa, o que pode impactar na identidade nacional e na autoimagem do país.
- Nos últimos anos, o uso de mapas alternativos tem sido adotado como ferramenta pedagógica para promover a diversidade cultural e a relativização das verdades absolutas sobre o mundo.
O debate brasileiro interno sobre o IBGE e suas decisões
Apesar da repercussão internacional e da proposta inovadora, o lançamento da nova cartografia pelo IBGE revelou tensões internas entre a diretoria e servidores técnicos, que temem um enfraquecimento institucional diante de uma gestão considerada por muitos como centralizadora e pouco dialogada. A carta aberta publicada por alguns servidores reforça a necessidade de maior transparência e respeito às competências técnicas para garantir a confiabilidade dos dados oficiais.
Esse descontentamento é importante para compreender as complexidades da mudança, uma vez que o IBGE é a principal referência em dados estatísticos oficiais do Brasil e sua credibilidade impacta diretamente políticas públicas, investimentos e estudos acadêmicos.
A integração entre símbolos visuais, dados acadêmicos e política institucional é delicada, especialmente diante da importância internacional atribuída aos mapas como instrumentos de poder e representação social.
Implicações para o ensino e a percepção da geografia no Brasil
O novo mapa do IBGE tem também potencial para transformar o ensino da geografia nas escolas brasileiras. Ao adotar uma perspectiva invertida e centrada no Brasil, pode estimular estudantes a pensar geograficamente de forma mais crítica e contextualizada, entendendo que a representação do mundo não é neutra.
Essa mudança também pode ampliar o interesse dos jovens pelas relações internacionais, política global e desenvolvimento sustentável, ao mostrar uma imagem do mundo que valoriza o papel dos países do Sul Global como agentes ativos e não apenas alvos de ações externas.
Fomentar esse debate em sala de aula é uma forma de formar cidadãos mais conscientes e críticos, capazes de avaliar o Brasil dentro de um contexto maior e mais justo, contribuindo para a valorização da identidade nacional e o respeito à diversidade cultural global.
O papel do Brasil no contexto geopolítico global e os desafios futuros
Colocar o Brasil no centro do mapa é uma metáfora para sua posição crescente na arena global, uma liderança que traz consigo responsabilidades e desafios. O país precisa, por exemplo, fortalecer suas instituições, como o IBGE, para garantir que o crescimento geopolítico venha acompanhado de solidez técnica e confiabilidade.
Além disso, é essencial que o Brasil mantenha e amplie o diálogo com demais países do Sul Global, promovendo a cooperação econômica, tecnológica e ambiental, inclusive na preparação para eventos como a COP30. A mudança cartográfica simboliza essa nova postura, mas só fará sentido se houver avanços concretos no desenvolvimento sustentável e na redução das desigualdades internas e externas.
No cenário mundial, a disputa por hegemonia ainda é intensa, e o Brasil precisa construir alianças estratégicas para defender seus interesses, combinando sua liderança regional com uma atuação internacional baseada na multipolaridade e no respeito mútuo.
Com o novo mapa do IBGE, a sociedade brasileira tem a oportunidade de refletir sobre seu papel no mundo, repensar velhas narrativas e abraçar um futuro de protagonismo ativo e sustentável na geopolítica do século XXI.