Transformação sustentável no Caximba: do aterro sanitário à Pirâmide Solar de Curitiba
O bairro Caximba, localizado na borda sul de Curitiba, vivenciou por décadas um grave problema ambiental devido à existência do principal aterro sanitário da cidade, que recebia diariamente cerca de 3 000 toneladas de lixo de dezesseis municípios da região. A presença do aterro provocava impactos negativos na saúde das pessoas e no meio ambiente local: crianças com doenças respiratórias, proliferação de insetos e ratos, além de frequentes vazamentos de chorume no Rio Iguaçu. No entanto, o que um dia foi símbolo de degradação, hoje é exemplo de inovação ambiental e sustentabilidade com a implantação da Pirâmide Solar do Caximba.
Desativado em 2010, o antigo lixão foi coberto por vegetação nativa e transformado em um parque solar composto por 8.600 painéis fotovoltaicos. Situado sobre o terreno onde se acumulou lixo por mais de duas décadas, o projeto capta a energia solar e converte para eletricidade, gerando benefícios ambientais e econômicos para Curitiba. A iniciativa funciona como um verdadeiro marco na recuperação ambiental urbana, demonstrando como o descarte irresponsável pode ser revertido em oportunidade para a transição energética, melhorando a qualidade de vida dos cidadãos e impulsionando a economia local.
Pirâmide Solar do Caximba: funcionamento e benefícios para a cidade
A eletricidade gerada pela Pirâmide Solar é injetada diretamente na rede da concessionária local de energia por meio do sistema de compensação. Esse mecanismo permite que a energia produzida substitua parcialmente o consumo dos prédios públicos municipais, incluindo escolas, unidades de saúde, centros administrativos e equipamentos sociais, beneficiando cerca de quarenta estabelecimentos. Como resultado, a prefeitura economiza cerca de 2,5 milhões de reais anualmente em custos com energia elétrica, valor que é direcionado para áreas prioritárias do governo municipal.
“Virou um ponto turístico, vem gente de outros lugares para ver de perto essa transformação”, relata Lucilene Pedroso, moradora do Caximba e testemunha dessa mudança. O projeto, além de promover uma economia significativa aos cofres públicos, personifica o papel do poder público como agente indutor da diversificação energética e da consciência ambiental. Para o engenheiro ambiental Alessandro Bertolino, “diversificar a produção energética não apenas impulsiona a economia, como também prepara a cidade para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.”
Desafios de engenharia para a construção da usina solar
Transformar um aterro de resíduos com 70 metros de altura em uma usina fotovoltaica foi uma tarefa complexa, que exigiu estudos e adaptações técnicas profundas. Para garantir a estabilidade da estrutura diante de um solo instável, equipes técnicas realizaram a compactação do terreno e sua cobertura com camadas impermeáveis, prevenindo vazamentos de resíduos e protegendo o meio ambiente. A engenheira civil Luciana Castro destaca a complexidade do trabalho: “É como se fosse uma gelatina, uma área instável que demandou quatro anos de estudo.”
Para evitar o afundamento e movimentações irregulares, as estruturas que sustentam os painéis foram fixadas por meio de estacas especiais. Além disso, houve o monitoramento e o controle da emissão de gases, como o metano, resultantes da decomposição dos resíduos antigos, com sistemas adequados de ventilação para garantir a segurança. Paralelamente, a adaptação à rede elétrica da cidade foi essencial para otimizar a eficiência na geração e distribuição energética no ambiente urbano.
Ampliação da geração de energia renovável em Curitiba
O projeto da Pirâmide Solar integra uma estratégia mais ampla de Curitiba, que investe na incorporação de energia solar em prédios públicos desde 2022. Escolas, unidades de saúde, terminais de ônibus e demais equipamentos municipais passaram a receber painéis fotovoltaicos, promovendo uma redução aproximada de 15% no custo anual com energia. Além disso, usinas distribuídas em pontos estratégicos, como a Fazenda Urbana do Cajuru, agregam valor social ao unir geração energética, educação ambiental, agricultura urbana e fomento à economia solidária.
Com o objetivo de avançar ainda mais na transição energética, a prefeitura estabeleceu a meta ambiciosa de tornar 100% dos prédios públicos autossuficientes em energia até 2030. Para viabilizar esse cenário, foram firmadas parcerias com instituições financeiras internacionais, que proporcionaram crédito significativo para investimento em energia solar e na modernização da frota de transporte coletivo. Marilza Dias, secretária municipal do Meio Ambiente, reforça o papel das cidades: “As cidades têm capacidade de criar soluções rápidas e são fundamentais no enfrentamento da crise climática.”
Legado histórico e inovação urbana
A governança de Curitiba, que hoje serve como modelo para estratégias climáticas, tem histórico marcado por inovações urbanas na última metade do século. O urbanista Jaime Lerner implementou projetos pioneiros como o Bus Rapid Transit (BRT), modelo de transporte por ônibus que revolucionou o sistema de mobilidade urbana e foi replicado mundialmente. A cidade também foi pioneira na criação de ruas exclusivas para pedestres, inspirando iniciativas similares no Brasil.
De um símbolo de degradação ambiental, Curitiba evoluiu para um laboratório de soluções sustentáveis na área urbana e energética. A Pirâmide Solar do Caximba é apenas um dos exemplos que expressam essa transformação, apontando no caminho para manter a liderança nacional em qualidade de vida e engajamento ambiental.