Declarações de Bolsonaro e Gustavo Gayer em inglês na Paulista

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Em um evento político que chamou atenção na avenida Paulista, em São Paulo, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) optaram por usar o inglês durante seus discursos em meio à manifestação. A decisão de falar em inglês, cerca de um momento estratégico na fala de ambos, trouxe um novo componente à comunicação política brasileira, mostrando a importância de um discurso direcionado para além das fronteiras nacionais. Mas, afinal, por que usar o inglês em discursos políticos ocorre e qual o efeito disso no contexto do Brasil?

Apesar de se tratar de uma passeata voltada ao público brasileiro, tanto Gayer quanto Bolsonaro parecem ter vivido a necessidade de “dialogar” com o mundo todo. A escolha do idioma inglês, hoje a língua franca global, não é apenas uma estratégia de comunicação, mas também uma forma de sinalizar posicionamentos críticos sobre a situação política vigente no Brasil, visando confirmação e suporte internacional. Este tipo de atitude levanta questões interessantes: como o uso do inglês influencia a percepção de eventos políticos internos? E até que ponto esse recurso ajuda ou atrapalha a autenticar as mensagens entre os eleitores nacionais?

O discurso em inglês de Gustavo Gayer — focado na defesa da liberdade e na crítica ao sistema judiciário — buscou criar uma conexão direta com a esfera internacional, ilustrando preocupações sobre o risco de um regime autoritário. Já Bolsonaro, com seu bordão adaptado “Make Brazil great again!”, evoca estratégias de campanhas globais, aproveitando o apelo midiático do inglês para reforçar sua imagem política. Essa interseção entre política doméstica e comunicação global merece uma análise profunda para entender o impacto real dessas mensagens multilíngues no cenário brasileiro.

O Impacto do Discurso em Inglês na Política Brasileira

O uso do inglês por figuras políticas brasileiras em manifestações públicas insere um fenômeno novo na cena política do país. Historicamente, o português sempre dominou os palcos políticos do Brasil, mas a globalização e a influência das redes sociais têm estimulado uma abertura para linguagens e estratégias comunicacionais múltiplas, com o objetivo de ampliar o alcance das mensagens.

Ao escolher o inglês, líder políticos como Gustavo Gayer e Jair Bolsonaro parecem buscar não apenas a atenção do público interno, mas sobretudo dos meios internacionais, tentando atrair olhares de imprensa estrangeira, organizações internacionais e até governos de outros países. Essa tática tem uma dupla função: validar a narrativa adotada no exterior e tentar colocar pressão diplomática diante de situações reivindicadas como legítimas.

Vale ressaltar que o inglês é considerado a língua da diplomacia e dos negócios globais, sendo o idioma adotado por maior parte dos organismos internacionais e da mídia mundial. Ao usá-lo, a mensagem ganha maior probabilidade de circulação em meios internacionais, que muitas vezes não acompanham as especificidades da política brasileira, mas que passam a tomar conhecimento da conjuntura local através desses discursos externos.

Entretanto, essa prática suscita questionamentos sobre seu real impacto junto ao público brasileiro, que em sua esmagadora maioria não domina fluentemente a língua inglesa. Será que falar inglês em discursos públicos aproxima ou distanciar a população? Há ainda a percepção de que o uso do inglês pode soar como uma tentativa de se conectar a uma elite globalizada ou de se “modernizar” politicamente, mas que pode gerar distanciamento dos eleitores comuns.

Além disso, discursos em inglês em manifestações nacionais criam um efeito de exclusão para quem não compreende o idioma, eventualmente reduzindo a eficácia do diálogo político mais direto. Apesar disso, a escolha pode ser explicada também por um movimento estratégico direcionado à imprensa internacional: para que ela tenha material para suas coberturas e analises, disseminando a mensagem conforme o interesse dos comunicadores políticos.

O discurso de Gustavo Gayer também enfatiza uma visão alarmista: a iminência de um regime autoritário e o risco de uma suposta ameaça do sistema judiciário à democracia. Em inglês, essas mensagens ganham repercussão além do Brasil, convocando aliados no cenário mundial para observar atentamente o contexto brasileiro. É uma tentativa clara de internacionalizar o discurso político interno, algo que tem se tornado mais comum em momentos de crise política.

Por outro lado, Jair Bolsonaro opta por uma frase curta e de efeito, que remete diretamente ao slogan usado anteriormente no exterior por Donald Trump e que simboliza discursos populistas e nacionalistas. Essa estratégia de adaptação cultural e linguística busca construir uma imagem política reconhecível globalmente, fomentando identificação entre eleitores com tendências similares em diferentes países.

Assim, o inglês não é usado somente como idioma, mas como um recurso para expandir o alcance simbólico do discurso político, articulando mensagens com forte carga emocional e ideológica, conectadas a uma audiência internacional.

Entretanto, a recepção dessas mensagens no Brasil pode variar drasticamente dependendo do grau de entendimento da população e da interpretação midiática local, que pode tanto amplificar como desconstruir a estratégia empregada pelos políticos.

Aspectos Sociopolíticos e Comunicacionais do Uso do Inglês por Políticos Brasileiros

Nos países multilíngues ou com forte integração econômica global, o uso de idiomas internacionais em discursos políticos é frequente e bem aceito. No Brasil, entretanto, o fenômeno ainda gera curiosidade e debate.

O domínio do inglês ainda é limitado a uma parcela específica da população brasileira, muitas vezes concentrada em áreas urbanas e em classes de maior renda. Portanto, o uso do inglês em uma passeata popular pode ser interpretado de múltiplas formas:

  • Estratégia diplomática: Visa alcanças atores internacionais, mostrando que as reivindicações feitas possuem respaldo público e político significante;
  • Sinalização política: Demonstra a inserção do Brasil em geopolíticas globais, indicando alinhamentos e intenções perante o mundo;
  • Identificação com grupos específicos: Pode fortalecer a imagem dos políticos junto a eleitores jovens, conectados às mídias globais e a discursos cosmopolitas;
  • Risco de fuga do público geral: Para a maior parte dos brasileiros, o discurso pode se tornar inacessível ou até causar distanciamento;
  • Reforço do poder midiático: Proporciona manchetes e atenção na imprensa estrangeira, ampliando o debate sobre o contexto político nacional.

Além disso, o uso do inglês também traz reflexões sobre o papel da comunicação política no século XXI. Campanhas e manifestações não mais se restringem ao território nacional, principalmente em um ambiente digital e globalizado. A disputa por narrativas é internacional, tornando o domínio do inglês uma ferramenta que determina a eficácia da mensagem.

Por outro lado, a prática pode ser discutida à luz da soberania e do protagonismo nacional. Indica que, para políticos como Gayer e Bolsonaro, dialogar com o mundo é tão importante quanto dialogar com a própria população, o que pode gerar tensões sobre a prioridade de público e a autenticidade do discurso.

Na esfera política brasileira, onde o engajamento popular ainda é pautado majoritariamente pelo português, o desafio é equilibrar a necessidade da comunicação global com a efetividade da mensagem para o maior público possível.

No caso específico do discurso de Gayer, é notável a tentativa de exportar uma narrativa de defesa da democracia e liberdade diante de um cenário que ele apresenta como ameaçado por instituições internas. Já Bolsonaro, usando um slogan populista, liga-se a um modelo que busca ressonância em audiências estrangeiras alinhadas a discursos nacionalistas. Ambos os posicionamentos mostram como discursos multilíngues podem ser mobilizados para estratégias distintas, mesmo dentro do mesmo evento.

Portanto, o inglês no discurso político brasileiro assume o papel de porta-voz de intenções, seja para moldar percepções internacionais, influenciar a opinião pública global ou pautar debates externos sobre a situação interna do país.

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