Jesuíta Barbosa: Do Sucesso nas Telonas ao Desafio das Artes Cênicas em “Sonho Elétrico”
Desde o lançamento há dois meses do filme Homem com H, uma cinebiografia sobre Ney Matogrosso, o ator Jesuíta Barbosa tem vivenciado um momento especial em sua carreira. O longa se tornou um sucesso de bilheteria e também ganhou destaque ao entrar para o catálogo da Netflix, ampliando o alcance internacional da produção e, consequentemente, da atuação expressiva de Jesuíta. Aos 34 anos, o ator pernambucano usufrui de um reconhecimento renovado, confirmando sua versatilidade ao transitar por projetos que dialogam tanto com o público popular quanto com o nicho cult.
Entretanto, longe de se acomodar com o sucesso nas redes ou com a visibilidade crescente, Jesuíta preferiu se dedicar a um campo que exige outro tipo de compromisso: o teatro. “A reação ao Homem com H foi ótima, mas desde então estou imerso nas ensaios”, conta ele. Este mergulho no teatro revela a busca constante de aprimoramento e aprofundamento que caracteriza sua trajetória. O palco, com sua energia e dinâmica próprias, demanda atenção contínua e presença completa, algo que Jesuíta abraça com entusiasmo na atual temporada da peça Sonho Elétrico, que estreou no Teatro Antunes Filho, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.
Valorizado por sua capacidade de interpretar personagens complexos, Jesuíta atua ao lado de Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio nesta montagem, sob o texto e direção de Marcio Abreu, renomado diretor e fundador da Companhia Brasileira de Teatro. O espetáculo é uma viagem intensa pelo universo da mente, inspirada na obra do neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro, especialmente no livro Sonho Manifesto.
Sonho Elétrico e a Imersão na Mente Humana
Sonho Elétrico apresenta uma trama instigante que mistura realidade e sonho em uma narrativa onírica. O personagem central, vivido por Jesuíta Barbosa, é um artista de uma banda que, ao sair de um show, é atingido por um raio. Isso o leva a um coma profundo, onde sua consciência transita entre a vida e a morte. O que aconteceu ao protagonista é o ponto de partida para uma exploração dos estados mentais, suas dualidades e fragmentações. “Os demais personagens são aspectos diferentes da mente dele, as múltiplas faces que surgem nesse estado intermediário”, explica o diretor Marcio Abreu.
Além do mergulho introspectivo, a peça carrega uma forte metáfora ambiental e social. O dramaturgo aponta que, tal como o protagonista, o planeta e a arte vivem perigos constantes, caminhando sempre na linha tênue entre a preservação e a destruição. Essa dualidade cria uma tensão que pulsa durante todo o espetáculo, marcando o ritmo e o tom da narrativa.
Esse projeto faz parte de uma trilogia que tem como eixo a investigação dos sonhos, da mente e da existência, iniciada pela peça Ao Vivo – Dentro da Cabeça de Alguém, outro trabalho de Marcio Abreu. Em citação à dramaturgia clássica, essa primeira montagem foi inspirada na obra A Gaivota, do russo Anton Tchekhov, e contou com a atuação de Renata Sorrah. Portanto, Sonho Elétrico se situa na continuidade dessa proposta artística, que une pesquisa teatral, filosofia e ciência.
Desafios do Teatro e a Alta Performance de Jesuíta Barbosa
Apesar da experiência consolidada no teatro, Jesuíta Barbosa admite que Sonho Elétrico é um trabalho que exige dele um esforço novo, especialmente no que diz respeito à dinâmica do elenco e à rapidez da cena. “Este espetáculo, mais do que qualquer outro que fiz, tem um ritmo muito ágil de contra-resposta. Estamos o tempo todo atentos, porque a energia não pode cair nem por um instante”, relata o ator. O jogo cênico com seus colegas — Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio — é intenso e demanda um preparo constante, o que envolve presença total no momento da atuação.
Esse desafio reverbera na interpretação, que precisa acompanhar a fluidez da narrativa e a complexidade da trama onírica. A peça, em cartaz até o início de agosto, é uma prova de fogo para Jesuíta e para todo elenco, reafirmando o compromisso com a qualidade artística e a inovação teatral.
Desde a popularização oriunda do filme Homem com H até a profundidade do teatro contemporâneo que experimenta em Sonho Elétrico, Jesuíta Barbosa demonstra uma trajetória guiada por escolhas que valorizam a densidade do trabalho, a autenticidade da interpretação e o contato verdadeiro com o público. Essa combinação é que torna seu percurso tão singular dentro da cena cultural brasileira atual.