Mensagens ocultas e simbologias em Extermínio: A Evolução

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Extermínio: A Evolução – Uma Nova Visão sobre o Terror e a Sociedade

Quando o filme Extermínio estreou, mudou para sempre o jeito de contar histórias de terror envolvendo zumbis. Em seguida, Extermínio: A Evolução chegou para romper ainda mais com as tradições do gênero, trazendo uma produção inovadora e cheia de camadas para se explorar. Este filme não só subverte o episódio clássico do apocalipse zumbi, como também traz um olhar crítico e político que dialoga profundamente com temas em voga.

Dirigido por Danny Boyle e com roteiro do talentoso Alex Garland, essa nova produção impressiona não apenas pela estética singular — filmada com iPhones —, mas também pela forma como aborda medos contemporâneos através da lente do terror. Mas, afinal, o que torna Extermínio: A Evolução tão diferente e perturbador? Por que tantos espectadores se sentem desafiados pelo filme? Vamos explorar o que está por trás dessa obra.

Este novo capítulo da saga usa a infestação zumbi para refletir temas complexos como política isolacionista, críticas à masculinidade tóxica e a relação desconfortável da sociedade com a morte, apresentando personagens multifacetados que fogem do simples estereótipo do morto-vivo. Acompanhe para entender a fundo as mensagens escondidas na narrativa, as referências históricas e culturais, e o que esperar do futuro da franquia.

Isolamento e Brexit: A Política por trás do Vírus

Um dos aspectos mais intrigantes de Extermínio: A Evolução é a forma como ele traz para o thriller de horror uma discussão política atual e complexa. O filme ambienta o surto viral na Inglaterra e mostra um país confinado, isolado do restante do mundo. Essa geopolítica fictícia não é apenas pano de fundo para o terror, mas se inspira diretamente numa das maiores divisões políticas recentes: o Brexit, o processo de separação do Reino Unido da União Europeia.

Assim, a narrativa mostra uma Grã-Bretanha que se torna um território primitivo, preso em seu próprio isolamento, cortado das redes globais de comunicação e interação. Esse cenário fictício questiona os efeitos do isolamento nacional extremo na sociedade, que não apenas fica vulnerável a um vírus devastador, mas também arraiga comportamentos retrógrados e repressivos. Navios de guerra vigiando a costa britânica reforçam esse clima de clausura e tensão, onde ninguém pode sair para evitar a propagação do vírus.

Além disso, o filme não economiza nas críticas históricas: o surto viral é acompanhado pela evocação da poesia de Rudyard Kipling, um autor inglês que denunciou o ciclo de violência e guerras promovidas pelo Império Britânico. A inclusão do poema Boots, recitado por um ator americano em cena, acende uma reflexão sobre o passado bélico do país e suas consequências não resolvidas, sugerindo que a violência — passadas ou presentes — segue influenciando as decisões e o destino da sociedade.

Este contexto torna Extermínio: A Evolução um filme que vai além do entretenimento, entrando na zona das discussões políticas globais e mostram como o isolamento e o medo podem degenerar numa forma de opressão e regressão social.

Humanos ou Zumbis? A Nova Definição do Vírus

Diferente do horror tradicional onde os zumbis aparecem como mortos-vivos lentos e em decomposição, Extermínio: A Evolução apresenta criaturas que desafiam essa definição. Os infectados não apenas são vivos, mas exibem capacidades únicas, inclusive a possibilidade de evoluir, ter peso corporal e até procriar. Isso cria uma fronteira difusa entre o que é humano e o que é monstruoso.

O vírus apresentado aqui não é um simples agente biológico; é um vírus de raiva manipulado em laboratório, o que detona comportamentos agressivos e primitivos, fazendo com que os infectados se comportem como feras violentas. O roteiro ainda aproveita a figura masculina desses “zumbis alfa” para criticar a masculinidade tóxica, expondo como essa versão exacerbada da virilidade pode degenerar para o brutal e o irracional.

A relação entre Spike e seu pai Jamie é simbólica nesse sentido. A jornada do garoto, que sai de uma comunidade isolada para enfrentar o “continente” contaminado, pode ser vista como um rito de passagem não apenas para enfrentar criaturas aterrorizantes, mas para confrontar valores retrógrados, expectativas e dinâmicas familiares conflituosas. O filme usa essa relação para questionar como traços antiquados de masculinidade ainda dominam e influenciam comportamentos sociais e pessoais na atualidade.

Além disso, a abordagem do vírus como um agente capaz de transformar humanos em versões selvagens de si mesmos traz uma camada de tensão psicológica, pois levanta a dúvida: quem são, afinal, os verdadeiros monstros, os infectados ou os humanos que não conseguem se desprender dos próprios medos e preconceitos?

O Médico e o Memento Mori: Encarar a Realidade da Morte

Uma figura que chama atenção em Extermínio: A Evolução é o médico Ian Kelson, vivido por Ralph Fiennes. Sua personagem não segue o estereótipo do cientista louco ou do salvador tradicional, mas sim alguém que convive de maneira singular com a ameaça do vírus.

Kelson adota um ritual à base de iodo para se proteger e desenvolver uma coexistência quase simbiótica com os infectados. Ele também pratica ações curiosas como queimar os mortos e usar seus ossos para criar esculturas macabras, que funcionam como uma arte-fúnebre, reafirmando a fragilidade da vida e o inevitável da morte. Seu mantra, “memento mori”, é um lembrete filosófico latino que significa “lembre-se de que você vai morrer”.

Esse enfoque no “memento mori” coloca Kelson numa posição incomum diante do apocalipse: ao invés de negar o fim iminente, ele o aceita e convive com ele. Essa aceitação revela um modo diferente de enxergar a sobrevivência em contextos extremos, menos pautado pelo instinto agressivo e mais pela consciência sobre a efemeridade da existência.

Diante de filmes do gênero que geralmente enfatizam o caos e a luta desesperada pela vida, essa abordagem traz uma reflexão importante sobre a morte e como ela impacta o comportamento humano, questionando as reações coletivas e individuais diante da catástrofe. Kelson é o contraponto a um mundo que foge e teme seu fim, tornando-se um personagem sensato em meio ao que parece ser insanidade.

O Final Enigmático e a Gangue dos Platinados

O encerramento de Extermínio: A Evolução traz um desfecho aberto e carregado de simbolismos, que deixa o público com muitas perguntas e interpretações. Spike, após enfrentar a perda de sua mãe, abandona a comunidade isolada onde cresceu e parte à aventura pelo continente tomado pelo vírus.

Encurralado por um grupo agressivo, ele é salvo por Jimmy, um personagem emblemático e estranho, que apareceu no início do filme como uma criança sobrevivente desde o primeiro surto em 2002. Jimmy lidera uma turma curiosa: todos loiros platinados, com roupas esportivas coloridas e joias extravagantes. Para espectadores britânicos, o visual carrega um significado perturbador, pois remete à gangue inspirada no apresentador infantil Jimmy Savile, que foi idolatrado durante sua vida, mas após sua morte foi alvo de 450 denúncias de abuso sexual, incluindo casos envolvendo crianças e até necrofilia. Essa referência dá uma dimensão sombria ao grupo, como se eles representassem um culto distorcido e nostálgico, preso a uma memória seletiva e corrompida do passado.

Ao usar essa figura como inspiração, o roteiro cria uma tensão entre a inocência perdida e as feridas da história, reforçando o caráter ambíguo e inquietante da turma platinada. Ainda mais, essa escolha serve para questionar como a nostalgia pode cegar para os absurdos e horrores que ela tenta mascarar.

Além disso, a indicação de que uma nova sequência deve explorar a relação de Spike com o grupo platinado deixa no ar a possibilidade de aprofundar ainda mais essas críticas sociais e psicológicas, ampliando o universo narrativo que mistura terror com debates contemporâneos.

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