O declínio das manifestações de Jair Bolsonaro e seus impactos políticos
Nos últimos anos, Jair Bolsonaro se consolidou como uma figura central no cenário político brasileiro. Enquanto ex-presidente, sua imagem sempre esteve associada a uma forte base popular, especialmente manifestada por meio de grandes eventos nas ruas do país. No entanto, recentes manifestações têm revelado um quadro diferente, indicando um desgaste significativo na sua capacidade de mobilização. Um episódio emblemático foi o protesto realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, que registrou o menor público dos últimos oito anos.
O público presente durante o evento na Avenida Paulista era de apenas 12,4 mil pessoas, conforme dados do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para se ter uma ideia da dimensão desse número, trata-se de uma presença comparável à de torcidas em jogos modestos de futebol, longe das expectativas criadas pela organização do evento. Uma comparação direta pode ser feita com a manifestação ocorrida em abril na mesma avenida, quando Bolsonaro reuniu 44,9 mil seguidores, apesar de ter prometido um milhão de pessoas. A queda na participação é ainda mais expressiva diante destas promessas grandiosas e da imagem que o ex-presidente costuma projetar.
O que explica a redução no apoio nas ruas?
A diminuição da mobilização popular nas manifestações de Bolsonaro não ocorre num vácuo político. A análise mostra que, de forma semelhante ao que ocorreu com grupos de esquerda e o antigo governo petista, a extrema-direita se desconectou de parte importante das demandas populares. A crítica frequente aos governos anteriores sobre a falta de sintonia com os anseios da população comum se aplica agora ao bolsonarismo, que tem mantido um discurso que parece distante das preocupações cotidianas de grande parte dos brasileiros.
Temas centrais para o eleitorado médio, como segurança pública, custo de vida e qualidade da saúde, não têm sido prioridade nas manifestações bolsonaristas recentes. Ao contrário, os discursos e bandeiras abordam questões que parecem distantes do cotidiano, como a anistia para criminosos envolvidos nos eventos de 8 de janeiro de 2023 e campanhas contra o Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à regulamentação das plataformas digitais. Este quadro contribui para a perda de apoio efetivo.
O paradoxo de Bolsonaro como líder popular
É importante destacar que o ex-presidente mantém uma considerável influência popular, mas essa popularidade está condicionada a ele abordar temas que são de interesse genuíno do eleitorado. Quando Bolsonaro volta a centrar seus discursos e propostas em realidades concretas sentidas pela população, a plateia tende a crescer e dar mais respaldo político. No entanto, quando ele se aproxima de um discurso político mais ideológico e desconectado, o engajamento diminui.
Esse paradoxo revela muito sobre as dinâmicas atuais da política brasileira, em que a capacidade de diálogo com as necessidades concretas do povo é fundamental para manter influência e liderança. Enquanto o ex-presidente tende a enfatizar questões identitárias e combativas, isso não tem necessariamente ressonância com uma parcela relevante dos eleitores que, na prática, querem soluções para problemas tangíveis.
As perspectivas políticas e a estratégia futura
Em evento recente, Bolsonaro admitiu que “não precisa ser presidente” para continuar exercendo influência política significativa. Ele sugere que o controle de metade dos assentos no Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado, poderia garantir essa influência. Essa estratégia indica um movimento de reorganização político-eleitoral, focando na disputa legislativa como modo de manter poder e influência no país.
Porém, o encolhimento das manifestações de rua sinaliza que, para alcançar tal objetivo, será necessário um reposicionamento em suas estratégias de comunicação e mobilização. Se o ex-presidente não adaptar seu discurso para retomar a conexão com as reais expectativas da população, o cenário seguirá desfavorável para seus planos políticos futuros. A capacidade de atrair votos e aliados dependerá diretamente de sua habilidade para conciliar seu projeto político com os interesses concretos do eleitorado.