Entenda os riscos e os cuidados necessários no turismo de aventura: lições a partir do caso Juliana Marins
O turismo de aventura é uma atividade que atrai milhares de pessoas ao redor do mundo que buscam contato direto com a natureza e experiências intensas. No entanto, esse tipo de atividade exige cuidados específicos, preparo adequado e acompanhamento profissional para garantir a segurança dos participantes. A trágica morte da publicitária Juliana Marins, que despencou cerca de 600 metros na encosta do vulcão Rinjani, na Indonésia, relembra essa necessidade urgente de atenção rigorosa nos passeios de aventura. Ela ficou cinco dias desaparecida até seu corpo ser encontrado, uma situação que gerou forte comoção e trouxe à tona debates acerca da responsabilidade dos guias, das equipes de resgate e da organização dos passeios.
É comum que grandes desafios em locais inóspitos como vulcões, trilhas extensas e terrenos montanhosos inspirem um misto de fascínio e temor. Mas será que sabemos realmente o que é necessário para encarar essa vivência com segurança? Quais são as principais recomendações que especialistas apontam para que os turistas possam aproveitar essas jornadas sem se colocar em risco? E, além da responsabilidade dos guias, qual o papel do aventureiro na preparação para tais atividades? A partir da análise do caso de Juliana, exploraremos as melhores práticas, os perigos que podem surgir e as normas que orientam o turismo de aventura, sobretudo as que visam a proteção e o bem-estar de todos os envolvidos.
Guia e preparo: a base do turismo de aventura seguro
Um dos fundamentos para que uma experiência de turismo de aventura aconteça com segurança é a presença de um guia qualificado. Gabrielle Monteiro, especialista em viagens de aventura e ecoturismo, destaca que ir sem acompanhamento profissional nunca é recomendado. “Podem haver diversos tipos de acidentes: falta de orientação do caminho, uma queda com fratura, picada de animal peçonhento, perda de equipamento pessoal e até mesmo falta de comida”, explica.
Na prática, o papel do guia transcende o simples ato de mostrar o caminho. Ele deve atuar como um condutor atento que monitora o grupo do começo ao fim da trilha ou atividade. O ideal é que exista um guia abrindo a trilha e outro fechando, garantindo que nenhum participante fique para trás, especialmente em locais onde as condições climáticas ou o terreno podem se tornar desafiadores rapidamente. No caso da tragédia envolvendo Juliana, relatos indicam que a jovem ficou para trás momentaneamente por estar cansada, e o guia seguiu adiante com o restante do grupo, deixando-a desassistida.
Outro aspecto fundamental é a preparação dos guias e a capacidade de avaliar o grupo e as condições locais. Segundo Fernanda Dornelles, vice-presidente da ABETA, conhecer o local, o nível de profissionalização dos responsáveis e as informações relevantes sobre a atividade são componentes indispensáveis. Saber quais os limites físicos dos participantes e como lidar com possíveis incidentes determina o sucesso e a segurança da empreitada. Sem essa avaliação, o risco de acidentes aumenta exponencialmente.
No Brasil, o setor de ecoturismo e turismo de aventura é bastante regulamentado, contando com normas técnicas específicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Estas normas estabelecem critérios para a segurança das operações e a qualificação dos profissionais, como a ABNT NBR ISO 21101, que trata do sistema de gestão da segurança em atividades de aventura. Essas regulamentações garantem que as agências e operadoras sigam padrões elevados de segurança, o que é essencial para proteger turistas e equipes.
O papel do ambiente e os desafios imprevisíveis da natureza
Mesmo com todos os protocolos, as condições naturais do ambiente são um fator que escapa ao controle total dos organizadores e participantes. Eventos climáticos súbitos, mudanças no terreno e outros elementos imprevisíveis podem transformar uma trilha aparentemente tranquila em um local de risco. Dornelles enfatiza que o turismo de aventura está sempre suscetível às variações da natureza, o que reforça a importância de um planejamento cuidadoso e da capacidade de adaptação rápida a imprevistos.
Ricardo Barros, especialista em montanhismo e diretor técnico do Clube Niteroiense de Montanhismo, faz uma analogia esclarecedora: “A montanha é como o surfe – tem ondas pequenas e grandes e os riscos estão sempre expostos. Não há garantias absolutas de segurança, e cabe ao aventureiro respeitar a força da natureza.” Essa visão destaca o equilíbrio necessário entre a busca pela aventura e o respeito pelas forças naturais que desafiam os aventureiros.
Equipamento e preparo individual: mais do que um capricho, uma necessidade
A tragédia de Juliana também chamou a atenção para a importância de o turista estar adequadamente equipado. Barros observou que a jovem parecia não portar equipamentos mínimos de sobrevivência e conforto, como uma mochila ou um cobertor de emergência, que poderia ter aumentado sua chance de sobreviver enquanto esperava por socorro.
Em atividades de aventura, é fundamental que o participante leve consigo itens básicos para garantir sua segurança, como água, comida, calçado apropriado, roupas adequadas ao clima e acessórios para primeiros socorros e emergência. Mesmo que o grupo conte com um guia, a responsabilidade pelo preparo individual não pode ser negligenciada. Além disso, os guias devem orientar rigorosamente sobre o que levar e como se preparar para as condições da trilha ou escalada.
O conceito de que “a montanha não é democrática” reforça que nem todas as pessoas possuem a mesma capacidade física ou conhecimento para participar de certas atividades. A preparação pessoal, portanto, é requisito básico para garantir que a aventura ocorra com segurança e prazer, evitando incidentes graves decorrentes de subestimação dos desafios.
Os protocolos de emergência e a importância do resgate rápido e eficaz
Um dos pontos mais críticos da tragédia no vulcão Rinjani foi a demora no resgate de Juliana Marins. A dificuldade de acesso ao local e a falta de equipamentos adequados para atender situações emergenciais dificultaram as operações. Essa falha levanta um alerta sobre como devem estar preparados os serviços de resgate em destinos de turismo de aventura, especialmente aqueles com terrenos difíceis ou remoção lenta de vítimas.
Equipes de resgate ágeis, capacitadas e bem equipadas são essenciais para atuar em situações de emergência. Além disso, o planejamento dos passeios precisa considerar rotas alternativas, pontos de comunicação e protocolos claros para casos de acidente ou desaparecimento. A negligência dos guias ou da gerência local pode custar vidas, como mostra este doloroso episódio.
É imprescindível que as agências e parques que promovem atividades de aventura possuam sistemas eficazes de comunicação e que os guias estejam treinados para lidar com situações de crise, inclusive em locais remotos. A gestão preventiva e a rapidez de resposta fazem diferença entre final trágico e resgates bem-sucedidos.
Como escolher destinos e operadoras para garantir segurança e qualidade
Antes de embarcar em uma aventura, o viajante precisa fazer uma pesquisa criteriosa sobre o destino e a operadora que conduzirá a experiência. Verificar se a empresa é regulamentada, se possui certificações em segurança e guias treinados, além de consultar avaliações e relatos de outros clientes, são medidas fundamentais para evitar surpresas desagradáveis.
É importante checar também o histórico do local quanto a incidentes e saber se há infraestrutura de suporte, atendimento emergencial e regras claras para condução dos grupos. Aventuras em locais remotos exigem um planejamento ainda mais rigoroso, assim como conhecimento específico em relação às condições climáticas e de terreno.
Viajar com operadoras sérias e comprometidas com as normas de segurança reduz significativamente os riscos e aumenta o aproveitamento da experiência. Além disso, o diálogo prévio com os guias para esclarecer dúvidas, condições do percurso, nível de dificuldade e preparação necessária ajuda a criar expectativas realistas e evitar imprevistos.
Aspectos psicológicos e físicos no turismo de aventura
Outro ponto relevante é o preparo psicológico dos aventureiros. Trilhas longas, escaladas e desafios naturais podem exigir resistência mental para lidar com o cansaço, o medo e a frustração. A fadiga pode levar a decisões erradas que aumentam o perigo, como sair da trilha, subestimar obstáculos ou desistir em momentos críticos.
Assim como o preparo físico é fundamental, trabalhar a resistência mental e o autoconhecimento torna a experiência mais segura e satisfatória. Participantes que conhecem seus limites e sabem gerenciar o estresse da situação têm menos chances de se envolver em acidentes.
Práticas simples, como treinamento físico contínuo, conhecimento prévio do trajeto, briefing com o guia e manter uma comunicação constante com o grupo são estratégias que contribuem para o equilíbrio emocional e a segurança.
Educação e cultura de segurança no turismo de aventura
Fomentar uma cultura de segurança entre turistas, guias e organizadores é uma das formas mais eficientes de prevenir acidentes. Isso passa pela educação contínua sobre os riscos envolvidos, o valor do uso correto do equipamento, a respeito ao meio ambiente e a importância do trabalho em equipe.
Programas educativos, workshops e treinamentos para profissionais e turistas ajudam a criar um ambiente de responsabilidade compartilhada. Essa cultura fortalece a confiança, minimiza erros e estimula o respeito às normas e limites pessoais, fundamentais para a sustentabilidade do turismo de aventura.
Iniciativas que envolvam autoridades locais, instituições de ensino e empresas do setor contribuem para um turismo mais seguro e consciente, capaz de preservar a vida e a natureza.